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sexta-feira, 17 de março de 2023

Anti-Rato

Estou finalmente a usar os computadores escola digital em sala de aula, e das primeiras coisas que fiz foi proibir o uso de ratos. Seguiu-se logo um coro de protestos dos alunos. "Mas professor, com o rato é mais facil, o do portátil não dá jeito, é difícil...". 

Exato, disse-lhes. É mesmo por ser mais difícil (do ponto de vista de crianças de dez anos, claro) usar o computador sem rato que o proíbi. Não quero que se habituem a muletas, e estou aqui para ensinar-vos a ir mais longe.

Cheguei a avisar que qualquer rato detetado na minha aula iria ser devorado pelo gato que tenho no gabinete. "O professor tem um gato no seu gabinete", perguntam, e eu mostro-o: desenho no quadro um martelo. Com olhos, bigode e sorriso, para não traumatizar demasiado as crianças.

Na aula seguinte, estamos a experimentar trabalhar com uma aplicação comum de criação de apresentações (TIC não é só programação e robótica, como bem gostaria...), e numa das opções os alunos têm de fazer scroll para ver mais informação. Como fazer, sem rato? Levanto a mão, inclino o meu portátil, e digo-lhes: meninos, olhem, dois dedos, coloquem o rato onde precisam de fazer scroll, e deslizem os dois dedos no centro do trackpad para cima e para baixo.

A aula explode num coro de oooohs! e aaaahs!. Alguns levam a mão à boca, de tão espantados que ficaram (não é hipérbole, vi mesmo uma das minhas alunas a fazer esse gesto). "Professor, não sabíamos que era possível fazer isto" é o comentário mais comum. Exato, digo, é o que acontece por se habituarem ao excessivamente simples. Ficam sem saber que podem ir mais longe.

Não simplificar em excesso é um ponto importante na educação digital.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Termos


A "boa" notícia deste fim de semana: as garantias dos computadores das fases iniciais do Escola Digital terminaram... e a  SGEC vai iniciar o processo de resolução do problema. Note-se o "vai iniciar", como se não fosse atempadamente previsível o fim das garantias.

Isto significa que qualquer avaria do equipamento passa a ter custos. Note-se, em equipamento que tem uso intenso nas mãos de crianças.

Não quero soar dramático, mas o meu instinto diz-me que isto poderá ser o princípio do fim do projeto Escola Digital. Digo isto com amargura, porque acredito nos princípios do projeto - dotar os intervenientes na educação de meios digitais. Mas discordo totalmente da forma como está a ser implementado, com estratégias erradas do meu ponto de vista, e erros inexplicáveis de planeamento. Como este, das garantias.

Como tudo o que diz respeito a este projeto, a coisa é discreta e não chega ao conhecimento público (tirando as notícias depressa esquecidas sobre questões levantadas pelo tribunal de contas). Desta vez, é provável que dentro de alguns meses rebente a bomba, porque todos os alunos dos 2º, 5º e 8º terão de fazer provas de aferição em suporte digital. Algo problemático, devido o que realmente se passa no terreno.

O Escola Digital começou a ter impacto em 2020 (mas foi preparado mais cedo). Dois anos depois, se calhar está na hora de se colocarem perguntas incómodas. Quem, nas instituições e equipes de planeamento, tomou más decisões que vão levar ao descarrilar de um investimento de milhões em fundos europeus?

E que más decisões? Tentemos uma pequena lista:

  • Porque é que não foi acautelada à partida uma garantia de longo prazo para os equipamentos?

  • Porque é que não foi acautelado a inclusão de danos por acidente no âmbito do seguro escolar? Qual é a lógica de forçar um pai/EE a pagar reparações caras de material que não lhe pertence,  sem seguro por acidente para precaver os azares? Por muito cuidadosas que sejam as crianças, o inesperado irá sempre acontecer.

  • Porque é que não se aborda a questão da sustentabilidade do projeto a longo prazo? Entregar 1,5 milhões de computadores sem garantir a renovação sistemática é um tremendo problema no projeto. 

  • Porque é que a reparação de equipamentos está entrege a duas empresas que já mostraram não ter capacidade para este trabalho? Os computadores ficam meses pendurados em processos de reparação. 

  • Porque é que é permitido que a Microsoft utilize este projeto para angariar utilizadores através de dark patterns? Dois exemplos: ao aceder pela primeira vez a uma conta, somos obrigados a assistir a um anúncio que nos explica que o IE é o browser que devemos usar. E não conseguimos usar o equipamento enquanto dura o anúncio (são poucos segundos, mas não permite aceder a mais nada). Outro exemplo: os computadores trazem todos um panfleto que explica aos utilizadores como ativar o Office e os serviços Microsoft através do email de escola dos alunos. Omite, no entanto, que tal só é possível se a escola for utilizadora do M365. Se não for, a ajuda não funciona, e estão mesmo a ver, certo? Os pais a questionar porque é que a escola não os deixa usar a Microsooft.

  • Porque é que não é clarificado o real direito de propriedade dos equipamentos. Todos acham que pertence aos alunos. Na verdade, não, pertence à SGEC, sendo geridos pelas escolas. O que significa que os utilizadores não têm direito de uso livre do computador e kit de conectividade (como, por exemplo, instalar um SO FOSS). No entanto, a atitude generalizada é a de que o equipamento pertence a quem foi entregue.

Com este projeto, o parque informático de uma escola explode, literalmente, em número de equipamentos. As escolas passam de ter de gerir parques informáticos de poucas centenas de computadores para milhares (no meu caso, passámos de cerca de 150 equipamentos para... 2700). Essas necessidades de gestão não são acompanhadas de reforço de meios técnicos, ou seja, é assegurada por professores e não por técnicos de informática.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Acumulações


A acumulação no meu gabinete de trabalho. Tudo isto são computadores Escola Digital que deviam estar nas mãos das crianças, mas não estão, por danos e avarias. Estes, são aqueles que aguardam levantamento para reparação, ainda poderia somar um igual número de outros cujos problemas são resolvidos por nós, professores. O número de máquinas paradas cresce todos os dias, porque as empresas contratadas pelo Ministério da Educação para realizar a reparação dos equipamentos não dão resposta às necessidades.

Alguns dos equipamentos que estão na fotografia aguardam levantamento para reparação desde Setembro de 2022.  A Inforlândia, empresa responsável pela reparação de equipamentos dos 2 e 3 ciclos, demora entre três a quatro meses entre sinalização, levantamento para reparação e devolução do computador. A Informantém, responsável pelo primeiro ciclo, nem sequer demonstra ter capacidade para responder aos pedidos de reparação.

As avarias são em parte consequência da qualidade fraca dos equipamentos (baterias, teclados que se soltam, sdds, pixels mortos), e em parte consequências do seu uso, com ecrãs partidos ou líquidos derramados. Todas as avarias que os reparadores consideram ser fora do âmbito da garantia, os reparadores cobram valores que demasiadas vezes se aproximam do valor da máquina. O pagamento tem de ser feitos pelos pais e encarregados de educação das crianças.

Agora, reparem, estes computadores são entregues a crianças, que os transportam entre casa e escola. Por muitos cuidados que se tenham, azares vão acontecer. E os pais não estão protegidos em caso de azares. Em Julho de 2022, o ministro da educação prometeu o estudo de uma solução para isto, através do seguro escolar. Seis meses depois, nada foi feito. Note-se que este projeto se iniciou em 2020 com entregas de computadores a crianças. E ainda não há seguro escolar para isto.

O projeto Escola Digital assenta na premissa de que todos os alunos (e docentes) dispõem de um computador. Esse equipamento tem de ser usado nas diversas atividades escolares, quer na sala de aula, quer em casa. Prevê também o alargamento do uso de manuais digitais. Mas, como implementar isto face aos problemas causados pela fragilidade dos equipamentos? 

O uso destes equipamentos é essencial, e obrigatório em muitas escolas, seguindo a perspetiva do projeto. Mas, como podemos resolver o problema levantado pelos encarregados de educação que recusam que os seus filhos sejam portadores dos equipamentos na escola? A recusa tem sentido, porque estes pais sabem que em caso de danos, não estão protegidos e serão responsabilizados financeiramente. Como podemos forçar uma criança a trazer para a escola um computador frágil, sabendo que se se estragar, não há seguro escolar que cubra os danos? Não é ilegítimo que um pai ou encarregado de educação se recuse a isto.

Este ano, foi decidido pelo IAVE e JNE que todas as provas de aferição aos alunos do 2º, 5º e 8º anos sejam feitas exclusivamente em digital. É lógico, se o programa Escola Digital cobre o universo escolar, aplicar este passo. Mas, como é que os alunos cujos computadores estão em reparação irão conseguir realizar provas? 

Apesar do aspeto, a minha escola não é dos piores casos. Analisamos cerca de 20 máquinas por semana, um terço dessas sinalizada para reparação externa. Há escolas com maior volume.