Um dos meus vícios bibliófilos está no gosto do acaso em encontrar livros que do passado, nos falam de futuros. Parece quase pueril, hoje, ter no bolso um livro com uma súmula do conhecimento científico e tendências tecnológicas de futuro próximo, mas lá está, os anos 80 foram outros tempos.
Obviamente.
Não li o livro todo, saltei para a parte da IA, que nos recorda os primórdios de uma tecnologia que hoje domina o nosso pensamento (leiam nisto o que quiserem, para uns representa o perigo de parar de pensar). Não há pronunciamentos sobre máquinas inteligentes - esse era mais o campo da FC, mas uma visão clara dos caminhos de desenvolvimento.
Se se estão a perguntar porque é que o livro não especula sobre computadores conscientes, estão a atirar ao lado, a confundir a hipérbole advinda do marketing de hoje com análise de tendências estruturais.
Como mimo, anda é destacada a Logo, e o incipiente movimento de dar às crianças a capacidade de programar. Ajuda a recordar que as tendências de hoje não são exclusivas do momento contemporâneo.
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Ele há acasos, penso. Como cheguei cedo à atividade e não quis incomodar o colega a meio da aula, meti a mão ao bolso e aproveitei para ler. Dei por mim num corredor do primeiro ciclo, a ouvir os professores a instar os seus alunos a fazer as fichas de trabalho, enquanto chegava às observações sobre educação de Marshall Mcluhan no esplendor de livro desenhado por Quentin Fiore, finalmente traduzido para português.
Que ironia, pensei, estar a ouvir o tipo de aula clássico de sempre, a ler Mcluhan a falar da necessidade de reinventar a educação para tempos modernos - no caso, dos media hoje tradicionais, da televisão e da rádio, mas uma visão que ainda assenta como uma luva na era das redes e ecrãs de bolso:
"É da maior urgência que as nossas instituições educativas reconheçam que temos agora uma guerra civil entre estes ambientes criados pelos meios de comunicação distintos da palavra impressa. A sala de aula encontra-se agora numa luta vital pela sobrevivência contra o mundo «exterior», imensamente persuasivo, criado pelos novos média informacionais. A educação tem de passar da instrução, da imposição de stencils, para a descoberta - a investigação, a exploração e o reconhecimento da linguagem das formas."
Soa familiar, não soa? Se não vos dissesse que isto foi escrito nos anos 60, achariam que vem de algum texto nosso contemporâneo.
No dia seguinte ouço Nóvoa a recordar-nós que da escola dos tempos dele aos de hoje, tudo mudou... menos o método pedagógico. Será o inconsciente coletivo a tentar dizer-me alguma coisa?
Não entendam isto como uma admoestação deselegante aos meus colegas. E eu, também não sou assim tão diferente deles.
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Soa familiar?
"A máquina governa. A vida humana está rigorosamente acorrentada por ela, sujeita às vontades terrivelmente exatas dos mecanismos. Estas criaturas dos homens são exigentes. Reagem agora sobre os seus criadores e moldam-nos à sua imagem. Precisam de humanos bem adestrados; apagam-lhes pouco a pouco as diferenças e tornam-nos adequados ao seu funcionamento regular, à uniformidade dos seus regimes. Constroem, pois, uma humanidade para seu uso, quase à sua imagem.
Há uma espécie de pacto entre a máquina e nós próprios, pacto comparável a esses terríveis compromissos que o sistema nervoso contrai com os demónios subtis da classe dos tóxicos. Quanto mais a máquina nos parece útil, mais ela se torna; quanto mais se torna, mais nos tornamos incompletos, incapazes de passar sem ela."
Parece saído de um qualquer texto dos dias de hoje, daqueles preocupados com os impactos da IA na sociedade, não parece?
Veio de 1925 (já centenário, portanto), da pena de Paul Valéry, que eu nunca associaria a estas questões. Estamos sempre a aprender. E a recordar que há questões que nos parecem específicas e novidade dos tempos em que vivemos, mas já são há muito discutidas.
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Durante uma daquelas conversas hiper interessantes que desbravam ideias, mencionou-se en passant que, bem, isto se calhar a IA ja gera código para o Scratch, talvez até o .sb3.
Fiquei com a orelha atrás da pulga e tive de tentar. Dei a clássica poliespiral de 122 graus ao Claude, interpretou o prompt, descreveu em pseudocódigo, e gerou um ficheiro que funciona sem erros no Scratch. Deu uma resposta à IA - essencialmente certa, mas com alguns pormenores desnecessários, bastava uma variável para este algoritmo funcionar. De qualquer forma, bem, a coisa funciona.
Não há aqui nenhum objetivo para além de testar uma ideia de sanidade dúvidosa. Nem de clamar o enterro de paradigmas estruturais das TIC na educação sob uma enxurrada de IA. Foi mesmo só o concretizar de um "e se".
Porquê poliespirais? Porque 20 things to do with a computer, eis porquê.
Porquê o Claude? Tinha acabado de estourar os tokens do Argon a experimentar outra ideia mencionada na conversa, também en passant, mas essa preciso de pedir ajuda ao pessoal de ensino especial para perceber se funciona devidamente.















