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quinta-feira, 25 de março de 2021

Curtas Lab Aberto

 O desafio: 30 minutos para mostrar o essencial de uma tecnologia. Nesta segunda sessão, o tema foi o scan 3D com fotogrametria, e suas aplicações na expressão pessoal e educação.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Anta de Carcavelos

 


Sinceramente não sei como é que o meu computador não estourou com este projeto. A ideia surgiu por acaso, durante um passeio na zona de Lousa. Encontrar este vestígio pré-histórico era o objetivo. E já o tenho digitalizado, e devidamente impresso em 3D, integrando o kit de artefactos pré-históricos que temos na escola para os alunos poderem tocar.

O modelo impresso em 3D (houve ali um warping que causou desvio na base, mas não afetou o modelo).


E o espaço real, que merece bem uma visita. Pesquisem Anta de Carcavelos no Google Maps, mas levem botas e preparem-se para desbravar algum mato.


Como foi feito? Confesso que tenho pouca paciência para o meticuloso trabalho de tirar fotos sucessivas interpostas que a fotogrametria requer. E, com a defunta Display.land, aprendi que se poderia fazer captura 3D a partir de vídeo. É assim que tenho feito, ultimamente. Filmo com o telemóvel (câmara na resolução máxima), circulando à volta do objeto para captar o máximo de pontos de vista e detalhes. O software de fotogrametria que uso não aceita vídeo como input (outros, como o Zephyr, fazem-no), tenho de ter o passo adicional de converter o vídeo para imagens. Uso o Free Video2JPEG Converter, que me permite decidir quantos fotogramas preservar do número total de fotogramas possíveis. Normalmente escolho extrair um em cada cinco fotogramas.

O resultado disto foi umas massivas 700 fotos, que importei para o Meshroom. Em seguida, foi deixá-lo correr a pipeline de digitalização 3D. Os nós suspeitos do costume demoraram - quer o Structure from Motion quer o Depth Map, que já percebi serem os mais intensivos computacionalmente. Não estava à espera que o meshing me demorasse quatro horas. O tempo total foi de cerca de oito horas... nunca nenhuma pipeline de fotogrametria me tinha demorado tanto tempo. A culpa disso está no elevado nível de detalhe, e no número de fotos. No dia seguinte repeti o processo com um dataset menor, cerca de 350 fotografias, e perderam-se alguns detalhes importantes. Ou seja, compensou a espera.

Para imprimir em 3D, outra dor de cabeça. O Meshroom gera uma superfície, e esta não era fácil de fechar para tornar estanque. Normalmente resolvo isso no Accutrans, com uma função que permite gerar volumetria no eixo escolhido. Infelizmente, a malha poligonal demasiado densa deste modelo não estava a facilitar a via ao Accutrans. Um pouco por acaso, descobri que o discreto 3D Builder tem uma opção chamada Extrusão Inferior - podemos definir um plano de corte, e a partir daí o algoritmo extrude verticalmente até chegar ao plano-base do 3D Builder. Ou seja, torna incrivelmente fácil a geração de modelos com volumetria estanque a partir de superfícies, para impressão 3D.

Gostaria muito de embeber aqui o modelo 3D da Anta de Carcavelos, mas excede os tamanhos permitidos pelo Sketchfab. Em parte porque o Meshroom gerou um modelo muito detalhado, completo com mapas de textura em alta resolução. Diminuir a contagem de polígonos no Meshlab, infelizmente, diminui a qualidade do modelo. Mas podem clicar aqui para o visualizar em 3D: Kroscloud - Anta de Carcavelos.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Display.land: Do Telemóvel à Impressão 3D

Por aqui estamos apaixonados pela Display.land, uma app para Android e iOS que facilita a captura 3D do real. Misturando fotogrametria com realidade aumentada, esta aplicação permite muito facilmente digitalizar objetos e espaços em 3D. Com resultados surpreendentes, tendo em conta que usa lentes de telemóveis e dados de sensores para uma técnica de digitalização que geralmente requer boas máquinas fotográficas e computadores capazes de correr os algoritmos que transformam sequências de imagens em modelos 3D.

Esta aplicação é um mundo de possibilidades. Podemos experimentar formas de fotografia computacional, gravando em 3D locais e momentos. Podemos participar em esforços de preservação digital de património. Podemos criar elementos e recursos para jogos e animação 3D a partir de capturas do real. Ou podemos imprimir em 3D reproduções de objetos e espaços. As possibilidades são muitas.

Onde obter:

A forma mais simples é ir à página da aplicação e clicar nos links diretos para as lojas de aplicações: Display.land.

Esta aplicação requer suporte AR Core, que não está disponível para todos os modelos de telemóvel. A Google disponibiliza uma lista de dispositivos suportados pela AR Core.

Tutoriais:

A Display.land tem um conjunto de tutoriais disponíveis aqui: Learn Display.land.


Como efectuar uma captura 3D: usar o telemóvel para capturar dados para fotogrametria, upload para os servidores da aplicação, edição da raw mesh no telemóvel, opções de publicação e partilha. No processo de captura, sugere-se que se comece por uma visão geral e ir aproximando, procurando diferentes pontos de vista em percursos suaves. Se se puder andar à volta do objeto, um percurso espiralado é o mais adequado.


Processar um modelo capturado para incorporar noutras aplicações: exportar um modelo 3D capturado pela Display.land, eliminar geometria excessiva, e incorporar em aplicações de modelação e animação 3D.


Processar um modelo capturado no Display.land para impressão 3D.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

My Cat Licked Off Some Avocado


É sempre giro quando um projeto regressa à vida de formas inesperadas. Os artefactos líticos do projeto Paleo foram apropriados por artistas ingleses para um projeto artístico no Instagram. Fizeram muito bem. Estes projetos são livremente partilhados. Porque através da partilha de conhecimentos e ideias, todos aprendemos mais.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A Head's Journey Into My Desk

About 60 km beyond Lisbon, Óbidos is a popular tourist attraction. Visitors are enchanted by this well preserved medieval village, with quaint white-walled houses enclosed inside a castle. Most of them don't stray beyond the main street (actually, the portuguese name means straight street) with its cafes, beverages, souvenir and bric a brac stores and bookstores. Óbidos plans to be the portuguese version of Hay on Wye, a bookish village, and has a lot of bookstores and an ambitious literary festival. But the best delights of this village can be found only by straying from the main path. Exploring the medieval alleyways reveals fascinating and very photographable architectural details.



One that continuously attracts my eyes is this strange creature. It sits, like a guarding dog, at the entrance steps of an old house. I don't know how old it is. Looks very weathered, ancient and not the fake old sometimes found on these sort of places. I also don't know what creature it is. My mythology fails me. Doesn't look like a dog, dragon, lion, chimaera or any other medievalesque inspiration. The most salient feature is its large head, with a human like face. I'm fascinated by this sculpture, and during one of my visits to the bookshops in Óbidos, I thought, why can't I have this in my desk, looking at me while I work? And with 3d scanning and printing, this is easy to do.

Scan: open Display.land app, and press the plus button.

First thing is scanning the statue. Scanning from photographs is a tricky but powerful technique, that requires computers far more powerful than my old laptop. But today, there are some mobile apps that bring photogrammetry into mobile devices. Display.land is one of the most recent, and actually quite powerful. Runs on middle to top range Android phones, and it's very easy to use for 3D scanning. From my experience, results are better with human-scale subjects: statutes, environments, architectural details, people and objects, or building facades. Small objects don't give good results.

Press begin, and walk around the object. As soon as the slider reaches the first mark, the algorithm has enough information to return a valid scan.
So, onwards. With my mid-range mobile, and a data connection, I start to scan this object. The trick is to capture multiple points of view that give the algorithm an idea of the shape of the objects. There are several ways to do it, my favorite is to walk around the object several times, in a spiral path, from bottom to top, circling several times. Display.land uses video for photogrammetry, but the capture is triggered by motion, not time. Point the camera and letting it run won't capture anything. You have to move around. The algorithm doesn't actually use video. It extracts images, and concatenates them with sensor data from the mobile phone (GPS, and location sensors, I assume, since the specific ways this app works are proprietary). The app has a progress bar, that shows us when the minimal amount of data has been captured for the algorithm. In most scans, this is enough for a reliable capture.

Dipslay.land has some in-app editing tools.

After capture, title and location have to be added, and the data uploaded to Ubiquity6’s servers. I generally wait for wifi access for this. After processing, captures can be further edited before publishing. Display.land has some limited editing capabilities in the mobile devices. Cropping is essential, since captures seldom return only what was scanned, and we need to discard extra geometry and center into the scan. This crop ensures that scans can be attractive in the app. But it's not destructive, all the captured mesh remains after cropping.



The next step is downloading the capture and process it for 3D printing. For now, this can't be done on Android phones. The trick is, on Display.land app, share the capture with yourself using email.

Display.land on the web. Login is done via mobile phone number.
This generates a link. Access it in a browser, login to your Display.land account, and download your capture as an obj file.

Captured mesh
Next, we have to clean the mesh of unnecessary geometry. Display.land does an amazing work on scanning, but results can sometimes be rather baffling. Essentially, it returns us far more than just the scanned object. For this, I import the obj into Meshlab, and use its selection tools (adjacent and rectangular) to delete unnecessary shapes and triangles. Sometimes one by one, in small details. After finishing, just export the obj file. Meshlab will remap the textures. This is useful if you are processing captures to use in Unity or other 3D programs, but for 3D printing isn't necessary.

Planar cuts in netfabb.
Before sending it to the printer, we have to make the model watertight. Meshlab leaves it with holes. There are several easy ways to do this. If the model has an area that can be used as a base, just import it into netfabb and use the planar cut tools to cut the model. Netfabb automatically seals the cuts in the mesh. To ensure that the model is error free (I strongly counsel this step for any 3D printing project, unless you like risk wasting time and filament), just run netfabb correction tools. When finished, export it as an STL file.

Conbining shapes in 3D Builder.
If the model needs a base, just open it using 3D Builder, a discrete yet surprisingly powerful windows tool (comes with 8 and 10 OS). Ignore the error detection warning, rotate, scale and position the mesh at will, and combine it with a deformed cube. Then export it as an STL file.

Load the STL into your slicer, load filament into your printer, and after a few hours, the slice of reality captured using Display.land becomes tangible again. During this process, you have also gained some insight into how this service generates 3D models. What looks eerily detailed on screen is, in most models, an amazing stitching job to generate the texture map. If you look at the mesh without textures, you'll see that the capture has far less detail than what you saw on the screen.


And, there is is. The strange creature in the doorstep is now sitting at my desk, staring at me while I work. It's actually a bit creepy, come to think of it.

domingo, 21 de outubro de 2018

Perspective Backwards: De DaVinci aos Drones


Ontem passei pelo Lab Aberto e deparei-me com esta fantástica impressão. O modelo foi criado usando fotogrametria, uma elegante técnica de digitalização 3D que permite extrair e concatenar informação espacial a partir de múltiplas fotos, e gerar uma malha poligonal. Há um projeto por detrás disto, mas ainda é prematuro falar dele. Esta, claramente, foi obtida por fotografia aérea com drones.

Mais à noite, numa das minhas leituras, dou com isto:

"About this Leonardo wrote :

If you draw the plan of a square (in perspective) and tell me the length of the near side, and if you mark within it a point at random, I shall be able to tell you how far is your sight from that square and what is the position of the selected point. You must proceed as follows: Produce oh and de to intersect inf. This point/gives you the height of the eye. If you wish to know the distance, draw the division an and the line eg. Its inter-section with gf gives the distance point. Then join the marks a, r, s, t, e, to the point f and to the point g. Scale your drawing and you will see the position of your point marked at random in the square. 

This is a very early example of the science of photogrammetry, which was developed early this century to elucidate true information from photographs — that is, to work perspective backwards. (Booker, 1963)"

O Leonardo a que o autor se refere é esse mesmo, o Da Vinci. O parágrafo descreve uma técnica de desenho em perspetiva. O livro chama-se A History of Engineering Drawing e foi um daqueles achados felizes num alfarrabista. Não me interesso especialmente pelas engenharias, mas interessa-me muito a história da evolução da perspetiva, e, curiosamente, ando farto de procurar literatura especificamente sobre esse tema em vão. Fiquei surpreendido por descobrir este tomo empoeirado esquecido nas prateleiras de um alfarrabista em Óbidos, e ao abri-lo perceber que tem muito do que eu quero descobrir: a história da evolução da perspetiva.

Pode parecer estranho, andar dedicado ao digital e preocupar-me com uma técnica clássica de desenho. Notem que tem tudo a ver, a perspetiva (linear e outras) está na génese das técnicas de modelação 3D e impressão 3D. Na medida que a tecnologia avança, creio que é importante manter visíveis as suas origens, o como se chegou onde chegámos. Nesta frase fiquei surpreendido pelo seu sincronismo: segurar uma impressão 3D de uma paisagem digitalizada por fotogrametria ao fim da tarde, dar com uma definição com quinhentos anos da técnica num livro editado em 1969 mais à noite.

Booker, P. (1963). A History of Engineering Drawing. Londres: Chatto & Windus.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Projeto Paleo



Diga-se que este foi um dos mais divertidos projetos que desenvolvemos nos últimos tempos. Como todos os bons projetos, arrancou por acaso, com uma menção à vertente fablab do Centro de Recursos. A ideia original era a de complementar uma exposição de artefatos líticos com atividades de pesquisa em repositórios 3D e impressão de alguns dos elementos pesquisados. Mas percebemos que se podia ir mais longe.

Impressão 3D de biface


E porque não, pensámos, digitalizar alguns destes artefactos? Não dispomos de scanners 3D, mas sabemos utilizar aplicações de fotogrametria. Não temos tido muitas oportunidades para usar esta tecnologia de digitalização, e este projeto pareceu-nos uma excelente forma de o fazer. 

Projeto Paleo

 Na sua forma final, este projeto incluiu:
- digitalização 3D de artefatos líticos, com partilha online e ficheiros disponíveis para impressão 3D;
- impressão 3D de reproduções dos artefatos líticos;
- pesquisa no Centro de Recursos, em repositórios de conteúdo de 3D, de modelos relativos à pré-história;
- exposição no átrio da escola, reunindo artefatos originais, cópias impressas em 3D, impressões 3D de modelos pesquisados pelos alunos, bibliografia e monografias.

Finalizado o projeto e a atividade, a escola fica a dispor, no Centro de Recursos, de um acervo de reproduções rigorosas de artefatos líticos da zona de Elvas, Póvoa de Santo Andrião e Tróia, que podem ser utilizados pelos docentes de História nas suas aulas.

Malha poligonal texturizada, processada no ReMake
 Para quem quiser fazer uso dos materiais criados neste projeto, podem descarregar diretamente no Sketchfab, organizados na coleção Projeto Paleo. A página de cada artefato tem informação sobre o local de recolha, época histórica, material do artefato e dimensões reais para impressão 3D, em milímetros. No Sketchfab podem ser descarregados os modelos em OBJ, com mapa de texturas. Para impressão 3D, podem encontrar aqui os ficheiros STL: ficheiro zip contendo todos os artefatos líticos, ou podem aceder a esta pasta do Google Drive para descarregar ficheiros STL individuais: Projeto Paleo. Os ficheiros STL foram validados pelo netfabb e imprimem sem erros.

Tecnologias Utilizadas


Fotogrametria é uma técnica de digitalização 3D que se baseia na trigonometria. É possível extrair informação espacial a partir de medições feitas sobre uma imagem - o princípio matemático que permite gerar informação rigorosa a partir de reconhecimento e levantamentos aéreos. O que os algoritmos de fotogrametria fazem é concatenar essa informação espacial a partir de sequências de fotografias, identificando pontos em comum e com isso gerar a malha poligonal de um modelo 3D. Normalmente, tira-se um mínimo de vinte fotos ao redor do objeto a capturar. Os melhores resultados requerem muito cuidado na toma de fotos, com máquinas fotográficas e software calibrado.

Captura 3D, em pré-processamento
Há algumas soluções mais simples: o Scann3D para Android, que gera resultados razoáveis mas na versão gratuita sem o nível de detalhe que queríamos para este projeto; o Regard3D, programa gratuito que dá bons resultados na extração de point clouds e geração de malha poligonal a partir de fotografias, mas não está optimizado e não permite limpar triângulos em excesso (um processamento de dados de imagem para extracção de pontos pode demorar horas); acabámos por utilizar o poderoso ReMake da Autodesk, programa que requer 8Gb de RAM no mínimo para correr, e é gratuito com uma licença de educação. O processamento das fotos é feito nos servidores da Autodesk (há uma versão totalmente offline, mas necessita de 16 Gb de RAM para correr), e o algoritmo é poderoso e tolerante com a qualidade das imagens. Mesmo na versão gratuita, comparativamente ao Scann3D permite melhores capturas, e ao contrário do Regard3D, fá-lo de forma rápida e com ferramentas de edição para posterior limpeza de malha poligonal.

Artefatos para digitalizar, reproduções impressas em 3D, medição das dimensões globais dos artefatos nos eixos XYZ.
Depois de um teste inicial para validar o conceito, digitalizámos alguns dos objetos da coleção de Vítor Miranda, o professor de História que propôs este projeto. São artefatos líticos que recolheu em diversos locais arqueológicos do paleolítico e neolítico, que estudou no domínio de artigos e monografias, algumas das quais estão expostas na exposição que reúne as várias vertentes deste projeto. Não digitalizámos todos os objetos que nos trouxe. A fotogrametria não é apropriada para objetos muito pequenos, optámos por digitalizar os mais representativos. Como o método de captura foi algo rudimentar (um plinto de projetor, massa bostik ou suportes simples para manter as peças fixas, fotos com um telemóvel), tivemos uma taxa de sucesso nas capturas de cerca de 80%. Houve pelo menos três capturas cuja malha poligonal não correspondia aos nossos critérios mínimos de captura da forma.

Porquê em 3D?


Não é difícil ir a um repositório e encontrar modelos de artefatos líticos. Porque é que nos decidimos a fazer um projeto destes? A questão da autenticidade e proximidade parece-nos pertinente. Há uma diferença sentimental forte, de elo de ligação, entre trabalhar com modelos e exemplos vindos de outras realidades, ou tocar em objetos de realidades que nos são próximas. Saber que o artefacto milenar em que seguramos foi recolhido no nosso país, corresponde ao labor dos nossos longínquos antepassados, tem qualquer coisa de especial.

Pesquisa orientada de recursos em repositórios de modelos 3D.

Normalmente abordamos o património de outros países, porque temos poucos exemplos recolhidos e partilhados do nosso próprio património. Foi por isso que nos atirámos a este projeto, e disponibilizamos os modelos para visualização online e download para impressão 3D. Qualquer interessado pode fazer uso dos modelos que criámos nestes projetos, em qualquer contexto. Se tiverem uma enorme vontade de imprimir bifaces e machados pré-históricos, estes modelos estão ao vosso dispor. Se quiserem mostrar na sala de aula, permitindo que os alunos toquem nestes objetos, sintam a sua volumetria e textura, utilizem livremente o resultado deste trabalho. Não garantimos a total fiabilidade das capturas 3D, mas o seu processamento tentou ao máximo manter fidelidade ao modelo original.

Este projeto é mais uma contribuição para a partilha de conhecimento, de elementos que facilitem aprendizagens. Foi criado no âmbito das atividades do departamento de Ciências Sociais e Humanas do Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro, proposto pelo Prof. Vítor Miranda. As fases de pesquisa foram coordenadas pela Prof.ª Jacqueline Duarte, coordenadora do Centro de Recursos Poeta José Fanha, no âmbito do projeto Fab@rts: O 3D nas mãos da Educação. A captura e processamento 3D dos artefatos líticos foi feita pelo Prof. Artur Coelho, coordenador PTE e dinamizador dos projetos TIC em 3D/Fab@rts. A impressão dos modelos foi feita em impressoras BEEVERYCREATIVE no espaço maker do Centro de Recursos Poeta José Fanha e zona de trabalho PTE do Agrupamento.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Projeto Artefactos Líticos


Há qualquer coisa de mágico na sensação de segurar num objeto que foi cuidadosamente criado pelos nossos ancestrais, há milhares de anos atrás. Sentimos a linha direta de criatividade e engenho humano que liga a nossa contemporânea era da computação com os idos tempos da pedra lascada. Uma das tecnologias de ponta da sua época, um dos imensos passos da nossa contínua evolução tecnológica. Estas pedras lascadas, para quem não conhece a sua história e evolução, são objetos surpreendentemente complexos, pensados de acordo com as suas utilizações, com uma óbvia mestria na sua manufatura. A sensação de tocar estes artefactos, sentir o seu peso e textura, imaginar as mãos dos nossos ancestrais que os lascaram pacientemente, é extraordinária.


E se tivermos a oportunidade de aliar duas pontas extremas da tecnologia, a longínqua pedra lascada e a contemporânea impressão 3D, procurando novas dimensões de descoberta e aprendizagem? O potencial da impressão 3D em tornar táctil o complexo ou o inacessível em educação é bem conhecido, e uma pesquisa nos repositórios de modelos 3D dá-nos logo acesso a capturas de objetos pré-históricos. O projeto Scan The World no MyMiniFactory tem uma extensa coleção de modelos artísticos, e o Sketchfab alberga trabalhos de digitalização 3D partilhados por arqueólogos e historiadores. Se pesquisarem apenas pela etiqueta archaeology-3Dmodel-photogrammetry encontrarão imensos modelos para descobrir o riquíssimo património pré-histórico.

Normalmente, um trabalho nosso no domínio da impressão 3D e património histórico ficaria nesta vertente, utilizando o espaço da biblioteca escolar para explorar literacias digitais e técnicas de pesquisa, e os recursos de TIC e do mini-fablab da escola para tornar tangível o digital. Colocaríamos alunos a pesquisar em repositórios, de acordo com objetivos pré-definidos em áreas disciplinares específicas, e em seguida imprimiriam as suas descobertas. É uma excelente forma de aprender, encontrando modelos e tocando nas reproduções dos objetos, que dão a sensação táctil da volumetria de uma forma que a imagem, ou mesmo o 3D no ecrã.

O passo lógico seguinte, difícil de dar em condições normais, seria o de reproduzir modelos originais. No nível de ensino em que trabalhamos não colocamos a hipótese de ensinar os alunos a modelar reproduções destes objetos, com modelação por primitivos ficariam modelos demasiado simplistas, requerem técnicas mais avançadas de modelação que não estão ao alcance de todos.

Artefatos destes não nos são acessíveis no dia a dia. Por isso, quando nos foi dada a oportunidade de trabalhar com eles, nem hesitámos.

Ficamos ainda com uma vertente extra. Podemos facilmente descarregar e imprimir modelos vindos de sítios arqueológicos de todo o mundo, mas há um valor adicional quando trabalhamos com modelos criados a partir de artefatos encontrados em Portugal. Dá-nos uma mais profunda sensação de continuidade cultural, e relaciona-se diretamente com o meio de proveniência dos nossos alunos.


Um pouco de contexto. Este projeto, como geralmente naqueles que são mais interessantes e desafiantes, surgiu informalmente. Chegou-nos ao conhecimento a proposta de um dos professores de História do Agrupamento de Escolas Venda do Pinheiro de fazer uma exposição no Centro de Recursos com alguns dos artefatos líticos da sua coleção pessoal, com, como referiu nas mensagens, uma vertente de fablab com pesquisa. Podíamos ir mais longe, propusemos. Poderíamos digitalizar esses artefactos, explorando-os de outra forma. Não temos scanners 3D, mas sabemos como utilizar aplicações de fotogrametria, que processam sequências de imagem e extraem delas um modelo 3D.




O como fazer iremos explorar em diversos posts. Mas não é um processo complexo. Necessitamos de fixar o objeto, e tirar uma sequência de fotos à sua volta. Não há aqui regras restritas, um número entre 20 a 40 fotos é o suficiente para uma boa captura. Necessitamos de ter alguns cuidados, mantendo o objeto que queremos digitalizar sempre focado e no centro da foto, mantendo sobreposições de pontos de vista entre cada foto da sequência. Temos de ter algum cuidado com a iluminação, contrastes grandes entre luz intensa e sombra vão impedir a captura correta. Ter uma boa máquina fotográfica ajuda a fazer boas captações, mas basta um telemóvel com uma câmara razoável para se conseguir bons resultados. O processo de captura em si é algo cansativo, temos de ser rigorosos nesse momento, para se conseguir um bom resultado.


O passo seguinte é escolher um software de digitalização 3D por fotogrametria. Neste projeto estamos a experimentar três: Scann3D, uma app mobile para Android, o podero ReMake da Autodesk (agora parte do ReCap, mas ainda disponível na secção de descargas da Autodesk e gratuito com licença para estudantes), e o gratuito Regard 3D. Destes, o ReMake é claramente o mais poderoso e fácil de utilizar, com imenso rigor nos resultados da captura. O processamento é feito nos servidores da Autodesk, e após a extração da malha poligonal podemos descarregar para o nosso computador.

O Scann3D é promissor pela sua portabilidade. O processamento das fotos é feito no dispositivo, pareceu-nos, mas não foi o que gerou resultados mais rigorosos.


Já o Regard3D merece mais exploração. É mais complexo para o utilizador do que o ReMake, funciona de uma forma sequencial em que temos de processar fotos rastreando pontos comuns, extrair a informação espacial, gerar uma nuvem de pontos, triangular a nuvem de pontos, transformar a triangulação numa superfície com algoritmos poisson de reconstrução de malha poligonal. Ou, em alternativa, exportar a pointcloud para o Meshlab e fazer aí o processamento. É bastante tolerante com a fonte das imagens. Utilizá-lo é um processo de descoberta das vertentes avançadas do 3D, requer conhecimentos avançados. Também exige bastante do processador do computador, o tempo de duração de algumas operações dos algoritmos mede-se em horas. Não tem ferramentas de processamento e limpeza de malha poligonal.


O ReMake é mais rápido, não nos dando controle sobre o processo de criação do modelo. No modo de edição, dá-nos ferramentas para fazer a limpeza e correção da malha poligonal, eliminando triângulos em excesso, fechando buracos, suavizando ou esculpindo diretamente nos polígonos. Exporta para diversos formatos e preserva muito bem a textura visual do modelo.



Começámos com dois bifaces, mas já temos mais em processamento. A ideia original de fazer uma exposição com os artefatos líticos mantém-se, mas vai ser aumentada com reproduções impressas em 3D que os alunos poderão manipular livremente. Queremos contribuir para a comunidade. Os modelos serão disponibilizados em repositórios, STL para impressão 3D e obj com mapa de texturas no Sketchfab. Dois já estão disponíveis.

Como estes projetos costumam ser faíscas para ideias impensáveis, certamente que iremos criar outras experiências de aprendizagem com os nossos alunos.